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Biosfera em Conversa: Licínia Soares, Reserva da Biosfera da Ilha do Porto Santo


O Biosfera em Conversa está de volta e continua a ouvir os gestores das Reservas da Biosfera de todo o país. Esta semana, aproveitamos os dois anos da classificação da Ilha do Porto Santo enquanto Reserva da Biosfera e celebramos na companhia de Licínia Soares, gestora deste território.


A nossa primeira convidada desta rubrica - a Presidente do Comité nacional MaB da UNESCO, Anabela Trindade - afirmou que uma Reserva da Biosfera é um laboratório ao ar livre, um espaço de aprendizagem aberto a todos.

O que é, para si, uma Reserva da Biosfera?

Concordo plenamente com a Dra Anabela Trindade. A Reserva da Biosfera é um laboratório vivo, em que há uma relação de simbiose entre o Homem e a Natureza, um modelo demonstrativo de equilíbrio entre a conservação da natureza (paisagens, ecossistemas e espécies) e a ação antrópica, tendo sempre em linha de conta o desenvolvimento sustentável a nível social, económico, cultural e ecológico.

Um território classificado como Reserva da Biosfera, deverá fomentar um desenvolvimento sustentável através do diálogo participativo, a partilha de conhecimento e experiências, o respeito pelos valores, a melhoria do bem-estar humano, a redução da pobreza e a capacitação da sua população para lidar com as constantes mudanças no mundo, promovendo soluções adequadas à sua realidade.

Qual é o seu local preferido nesta Reserva da Biosfera e porquê?

A Reserva da Biosfera da Ilha do Porto Santo é a mais recente que integrou a rede nacional portuguesa de Reservas da Biosfera, mais precisamente, no dia 28 de outubro de 2020. Apesar da ilha ser bastante pequena, apresenta características muito peculiares e um legado de diversidade biológica e geológica, de ecossistemas bem preservados e de espécies de notável interesse.

Todos os locais da ilha, sejam eles classificados como geossítios, sítios de geodiversidades ou não ter nenhuma classificação, têm a sua beleza e transmitem serenidade, tanto à sua população como também aos visitantes.

Destaco a praia, pelo seu encanto ímpar, de areia fina e dourada, estendendo-se ao longo de 9 km, dando origem ao nome de que o Porto Santo também é apelidado, isto é, “Ilha Dourada”.

Há muito que são atribuídas propriedades terapêuticas raras e medicinais às areias do Porto Santo. Este facto está comprovado cientificamente, devido às propriedades físicas, químicas e térmicas das areias carbonatadas biogénicas que são essenciais para terapias de doenças do foro ortopédico e reumático.

Enquanto que as praias de Portugal Continental ostentam areias constituídas, essencialmente, de quartzo, já a areia da ilha do Porto Santo é constituída por bioclastos, que são representados por algas, conchas de moluscos, briozoários e outros restos fossilizados de micro-organismos marinhos.

Ainda gostaria de realçar que a nossa praia também está contemplada nas Sete Maravilhas de Portugal. No presente ano, a praia do Porto Santo foi considerada a Melhor Praia da Europa, obtendo o primeiro lugar (site European Best Destinations), como também foi eleita uma das melhores praias do mundo, nas cinquenta praias nomeadas, tendo obtido o décimo quinto lugar (site Big Seven Travel).

É, sem dúvida, um grande motivo de orgulho para todos os porto-santenses e um ótimo lugar para “recarregarmos as baterias”, com o cheiro da maresia e o som das ondas a percorrerem o extenso areal.


Quais considera serem as mais-valias e os maiores desafios de trabalhar na gestão destes territórios?

Na minha opinião, o maior desafio é envolver a comunidade local e todos os parceiros de forma cooperativa e, acima de tudo, consciencializar a população para a importância e os benefícios de ostentarmos o título de Reserva da Biosfera e de como isso poderá contribuir para melhorar a qualidade de vida de todos, de forma sustentável e equilibrada entre a conservação da natureza e as atividades humanas. Acredito que através de um desenvolvimento económico sustentado, que se baseia naquilo que é a imagem e identidade do Porto Santo, poderá criar mais postos de trabalho estáveis e dignificantes do empenho de cada um e indo ao encontro das mais-valias da Reserva da Biosfera, isto é, conservação, proteção e valorização do património natural.


Acha que a população residente e visitantes podem ter um papel no trabalho de conservação e sustentabilidade que levam a cabo? Como?

Sim e é fundamental a participação de todos, sejam residentes ou visitantes, para demonstrarmos e sermos merecedores de ostentar um território qualificado e diferenciado.

É preciso envolver a população e todos os parceiros, através do diálogo participativo, ações de sensibilização, dinamização de atividades de conservação da natureza e valorização do património, assim como de várias iniciativas, apoios financeiros e de capacitação aos produtores e empreendedores locais, apostar no ecoturismo... Também é importante investir nas camadas mais jovens, incutindo nas crianças e jovens o conhecimento das particularidades da sua Reserva da Biosfera, que sintam orgulho e sejam agentes interventivos.

É tal como o ditado popular refere “Uma andorinha não faz a primavera”. A Reserva da Biosfera é de todos e é função de cada um contribuir da melhor forma para que haja uma integração harmoniosa dos seres humanos na natureza, de forma sustentável.


Por fim, gostaríamos que partilhasse connosco os projetos e iniciativas, em marcha e de futuro, na sua Reserva da Biosfera. E como os poderemos acompanhar, estejamos por perto ou à distância.

Como referi anteriormente, a Reserva da Biosfera da Ilha do Porto Santo está prestes a comemorar o seu segundo aniversário. Há muita coisa que já foi feita, mas também ainda há muito por fazer!

Temos alguns projetos em andamento, nomeadamente a recuperação e reabilitação de 3 moinhos de vento e 14 fontanários de modo a contribuir para a valorização de elementos do património cultural e histórico que definem a identidade porto-santense, numa salvaguarda da memória coletiva do povo, assim como num contributo para a promoção de um destino turístico rico e diversificado, com uma oferta, se possível, para todo o ano.

Outro dos projetos é o Centro de Interpretação Cultural e Ambiental da Ilha do Porto Santo que será sediado na antiga Ecoteca e permitirá a transmissão de conhecimento relacionado com o património material e imaterial da ilha à comunidade local. Além disso, também promoverá o património cultural e natural da ilha do Porto Santo junto da população residente, mas também daqueles que nos visitam.

O Projeto Porto Santo Sustentável – SMART FOSSIL ISLAND foi criado em 2018 numa parceria entre o Governo Regional da Madeira, a Empresa de Eletricidade da Madeira e a Agência Regional da Energia e Ambiente e teve como objetivo tornar o Porto Santo numa ilha sem combustíveis fósseis e com emissões de CO2 quase nulas. O maior desiderato foi melhorar a qualidade de vida dos residentes e dos visitantes, gerando assim novas oportunidades para a economia local, reduzindo as dependências externas e valorizando os recursos naturais. Já temos algumas viaturas elétricas a circular na ilha pertencentes a particulares, instituições e empresas, assim como, estão instaladas redes de carregamento inteligente.

Outro dos projetos dinamizado é o LIFE DUNAS que foi criado em outubro de 2020, é coordenado pela Secretaria Regional de Ambiente, Recursos Naturais e Alterações Climáticas e tem vários parceiros, entre eles o Município do Porto Santo. Este projeto pretende restaurar o ecossistema dunar, com base no controlo de espécies exóticas invasoras e na instalação de um coberto vegetal nativo na zona reconstruída e áreas adjacentes. Ainda aposta numa componente sociocultural, nomeadamente com a dinamização da viticultura tradicional nos terrenos agrícolas adjacentes com a recuperação dos típicos muros de “crochet”. É de referir ainda que um dos grandes objetivos deste projeto é o de contribuir para melhorar a governança climática geral e aumentar a conscientização local da população e turistas e empresas pelo envolvimento em ações de voluntariado e de participação ativa em trabalhos de replicação / transferência.


Gostaria ainda de salientar que o nosso Plano de Ação está a ser reestruturado de acordo com as necessidades e que é nossa intenção registar a marca e fazer o regulamento para o uso da marca e logotipo da Reserva da Biosfera da Ilha do Porto Santo.

Ainda há um árduo trabalho de sensibilização e de envolvimento da população, mas estou confiante de que os resultados serão otimistas.

Em relação à divulgação e partilha dos projetos e iniciativas, geralmente, podem ser encontrados na página WEB do município.